Quinta-feira, Julho 16, 2009

Sobre o medo de tentar

Enquanto não parasse o tempo, ele não pararia de se sentir sufocado. Se não desse para parar o tempo cronológico, que parasse o temporal que fazia lá fora. Ele sabia que havia um mundo imenso o esperando, mas a segurança de sua casa pequena o desencorajava de quebrar barreiras. E ele foi ficando, desanimando-se, querendo muito se libertar dos receios ao mesmo tempo que não queria sair, nem mesmo se fizesse um lindo tempo lá fora. Ele foi acomodando-se, atrofiando-se, findando-se... como os desejos do seu coração e a vontade de superar seus próprios limites, ambos, desejo e vontade, sem a mínima vontade de pegar um guarda-chuva.


E da minha janela eu o vejo com o rosto colado no vidro da janela dele. E me sinto agoniada de pensar na agonia dele em ver tudo do tamanho de sua janela.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Às beatrizes do mundo inteiro

Para aliviar o tédio eu entro nos álbuns de várias pessoas no Orkut, no fim acabo esquecendo quem e o que estou olhando. Mas dela, ah!, dela eu não perdi o foco. É engraçado como em pouco tempo se muda tanto. Tipo de corte e cor do cabelo, expressões, estilo. Só o sorriso que nunca muda. Até a vida muda.
A vida dela mudou. Quisera eu ter a capacidade de imaginar.
Mas não me atreveria.
É uma história muita forte. Eu não faço idéia do que é engravidar solteira. Do que é não ter emprego quando mais se precisa dele. Do que é sentir a ausência de quem deveria estar presente de igual maneira. Do que é ser mãe, sentir uma vida dentro de si, dar de mamar, embrulhar, fazer dormir, proteger.
Ela diz que sente uma invejinha báscia quando vê as fotos do meu casamento.
Eu quase disse que sinto uma invejinha básica por ela ter o Francisquinho...
O Francisquinho e esse sorriso que não muda. Sorriso de quem parece nunca ter precisa lutar na vida.
Eu escrevo porque a história dela, uma história tão bonita como essa, tem que ser eternizada.
E será... por si só.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

O grande encontro

O encontro é só às duas da tarde, mas eu começo a me preparar já pela manhã. Acordo mais cedo e fico deitada no peito do marido-delícia, recebendo carinho, mas com a mente em outro lugar, em outra pessoa. Levanto, tomo café, leio algum texto, faço um pouco de crochê. Tento relaxar, mas não consigo. A mente insiste em visitar outro lugar, outra pessoa.
Já está chegando a hora. Tomo um banho caprichado, quente e demorado. Barbeador, creme de pele em todo o corpo, roupa confortável. Ah! Maquiagem leve. Não quero parecer tão produzida, como se eu estivesse me arrumando para o meu marido. Mas também não quero parecer despreocupada como se estivesse em casa, com o marido. Sombra da cor da pele pra dar vida. Rímel. Blush. Batom cor da boca.
Eu tenho um compromisso marcado para as duas da tarde e é o marido-delícia que vai me levar. Estou tensa, ansiosa. Ele é compreensivo, tenta me acalmar, me dá carinho, mesmo sabendo que o meu encontro é com outra pessoa.
Meu pé não pára de balançar, minha mão não pára de suar. Estamos sentados em frente ao local marcado, esperando que abram a porta para eu entrar.
Ela, uma mulher loura, simpática, abre a porta, pisca pra mim como o sinal de “venha, Raysla”. Me despeço dele para ter um encontro com ela.
Sou convidada a sentar. A gente conversa um pouco e ela sugere que eu tire a minha roupa. “Tem uma camisolinha ali na frente do banheiro, pode ir lá, ta?” Ta, né. Eu não deveria me preocupar, mas enquanto tiro a minha roupa fico pensando no que ela vai achar de mim, isso se ela achar alguma coisa. Também penso se ela vai achar alguma coisa em mim.
Me deito, ela me toca intimamente por menos de 2 minutos e diz que eu já posso me vestir. Dois minutos que pareciam 2 horas para mim. Me visto, pego uns papeizinhos com pedido de retorno.
- Bom, então tchau. Obrigada. - Tchau, querida! Até a próxima.
Abro a porta e saio com muita, muita saudade do marido-delícia que me surpreende com um “mas já?!”.
É que ele não tem que ir ao ginecologista pelo menos 2 vezes por ano.

Terça-feira, Maio 26, 2009

Que livro você é?

Estava visitando a Jana e tive a deliciosa surpresa de um link de teste no blog dela! E eu, que quase não gosto de testes (é, eu estou treinando a ironia), fui logo descobrir que livro eu seria, se fosse um."O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua".
Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz.
"Antologia poética" (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano.

E eu fico toda cheia, porque Drummond, pra mim, não é só o melhor poeta, mas a própria poesia personificada.

E você, que livro é?

Quinta-feira, Maio 21, 2009

A Modernidade e o "X" da questão

Não sou estudante, nem trabalho. E não, não é preguiça. É modernidade! Esse negócio de achar que mulher moderna tem que se quebrar em 4, ser uma ótima funcionária na empresa que trabalha, ser uma mãe perfeita, ser a melhor esposa do mundo e ainda ser a mais bela de todas é uma furada se ela não for feliz! Modernidade é mulher não trabalhar fora se não quiser, e ter uma geladeira com degelo seco, uma máquina de lavar e uma secadora de roupas pra ter tempo para pintar e bordar e costurar e escrever enquanto o marido está trabalhando pra pagar a conta da energia elétrica da mulher moderna. Porque hoje em dia ser diferente é ser feliz, sem pensar em ninguém, pensar primeiro em si mesmo. Alegria e paz de corpo e espírito é o maior protesto feminista que há!

Agora, querida, o "X" da questão é você ter sorte para achar um marido tão compreensivo assim. Se achar, por favor, não seja tão cruel a ponto de escolher o presente mais caro para o dia dos namorados. Peça apenas o que quer realmente ganhar, um anel de esmeralda, por exemplo. Agora, o presente for tão caro quanto a conta de energia, não nos apavoremos. Um jantar romântico com uma caixa de bombons substitui a jóia numa boa e cai muito bem.
É por isso que eu digo que tenho um caso de amor eterno com a sorte.

*Making Of:
- Amor, eu vou republicar aquele texto que escrevi no Vibrateur, o que acha?
- Eu nem lembro qual é o texto.

- É esse aqui, mas eu estou pensando em não colocar o último parágrafo, sei lá.
- Ah, sim, acho bom!
E eu que não sou besta nem nada, vou deixar de colocar essas coisas sobre esmeraldas... quer dizer, deixar de colocar tão escancaradamente.